
Se estivesse vivo, Carlos Drummond de Andrade estaria fazendo aniversário em 31 de Outubro. Mineiro de nascimento e carioca de coração, Drummond nasceu na cidade de Itabira em 1902. Estudou em Belo Horizonte e mais tarde num colégio de padres, de onde foi expulso por “insubordinação mental”. Diplomou-se em farmacologia e exerceu a função de funcionário público durante a maior parte da vida. Publicou o primeiro livro com o dinheiro do próprio bolso e daí não parou mais. Morreu em 1987, 12 dias após a morte de sua única filha, Maria Julieta.
Além de poesias, escreveu contos, histórias infantis e crônicas. Entre seus livros estão Alguma Poesia, Brejo das Almas, A Rosa do Povo, Amar se Aprende Amando, As Impurezas do Branco, Um Fim de Prosa, Os Dias Lindos, José e os Outros e Farewell.
No mesmo dia 31 de outubro (de 1993) morria o cineasta Federico Fellini, mestre de obras como A Doce Vida e Noites de Cabíria.
Abaixo, você poder conferir uma pequena e singela amostra da obra de Drummond, o poema Mar.
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.